CORAÇÕES FERIDOS - Luisa Reid

08/07/2016 15:00

Resenha de Corações Feridos

 

Se precisasse definir este livro em uma palavra seria – chocante. Chocante entrar em um mundo no qual filhos sofrem abuso dos seus próprios pais. Triste saber que quem deveria proteger agride, maltrata e humilha.

 

  Título: Corações feridos

  Autora: Louisa Reid

  Editora: Nova Conceito

  Páginas: 253

  Classificação da leitura:

 

 

Sinopse – Ele não lhes permite ir à escola, ou ter amigos, as roupas que as filhas usam são restos de doações que não servem nem para caridade. O saquinho do chá que tomam é reaproveitado pelo menos outra vez e, se elas ficam doentes, ele não lhes oferece sequer um remédio. Parece que vivem em outra época, mas é só a forma como o Pastor Roderick decidiu criar Hephzibah e Rebecca, suas gêmeas. E quem poderia imaginar que a vida das garotas e de sua mãe fosse assim? Para os outros,  se apresenta como um homem gentil, de grande fé e sorriso no rosto. Mesmo que as irmãs contassem a todos sobre os horrores de viverem ao lado de um monstro, ninguém acreditaria...

Uma história original e incômoda que fala das mentiras em que queremos acreditar e das verdades que nem sempre estamos prontos para aceitar.

 

Resenha – Na maioria das vezes escolho minha próxima leitura por indicação, mas este livro foi exceção. O comprei por um acaso, estava muito barato e quando li a sinopse achei a história interessante e instigante. Ele ficou esquecido na estante um bom tempo; e, finalmente decidi lê-lo. Gostei bastante da leitura.

O livro é dividido em duas partes. Na primeira parte os capítulos são alternados entre as irmãs Hephzibah e Rebecca. Os capítulos narrados por Hephzi são intitulados como antes, porque foi antes da morte dela. E, os da Rebecca são intitulados como depois, já que Reb conta como está sua vida após a morte da irmã. Além de intercalados os capítulos são curtos, o que só faz com a leitura seja bem rápida. Na segunda parte a narração é feita só pela Rebecca.

Nas primeiras linhas da narrativa já somos apresentados ao sofrimento de Rebecca. Ela inicia o seu discurso logo após o enterro de sua irmã gêmea.

 

“Gravei o dia de hoje em minhas memórias como mais um dia negro, e está lá, uma dura história escrita em meu coração. As histórias que tenho escondidas dentro de mim; se você pudesse abrir-me, leria a verdade. Olhe para dentro, retire a pele, a carne e os ossos e encontrará uma biblioteca de sofrimentos.” (Pág. 12)

 

Rebecca está totalmente sozinha, agora que sua irmã gêmea morreu. Isso não é spoiler, pois está na contracapa do livro. Somente Rebecca sabe a verdadeira causa da morte de Hephzibah.

Hephzi e Reb, apesar de gêmeas, são muito diferentes. Hephzi é linda e voluntariosa, enquanto Reb nasceu com uma doença (Síndrome de Treacher Collins) que deformou o seu rosto. Reb é mais cuidadosa e retraída.

O pai das gêmeas, Pastor Roderick, é um fanático religioso e cria as filhas de uma forma subumana. Elas são agredidas fisicamente e psicologicamente. A mãe das meninas é condizente com tudo. Aos fiéis da igreja o Pastor demonstra ser um homem bom e dono de uma moral ilibada, mas dentro de casa a situação é terrível.

 

“... malucos que ficavam de joelhos para rezar, mas que, tão logo estivessem seguros atrás de portas fechadas, tiravam as máscara e deixavam o veneno irromper.” (Pág. 56)

 

As filhas só passam a ir à escola aos dezesseis anos, devido a insistência de uma membro da igreja. Antes elas aprendiam em casa com a mãe.

Hephzi aproveita a oportunidade para tentar ser popular; e, por esse motivo ela afasta Rebecca de seu convívio na escola. Porque as pessoas não se acostumavam com o rosto de Reb. A menina sofrera desde o nascimento por ter uma deformidade facial. Seus pais a chamavam de aberração. Os pais nunca a levaram ao médico e a odiavam mais do que odiavam a irmã.

 

“Nasci sem orelhas e com um rosto muito longo. Vovó me dissera havia um tempão que era por causa de uma síndrome chamada de Treacher Collins. Eu acho que os pais nem sequer se preocuparam em descobrir o que isso significava; para eles era apenas um motivo para me odiarem. Sei que isso significa que eu nunca serei bonita como Hephzi.” (Pág. 45)

 

No começo ao ler os capítulos narrados por Hephzi me incomodei um pouco com a forma de ela tratar a irmã, a achei muito egoísta. Rebecca sempre protegia a irmã e muitas vezes apanhava no lugar dela. Mas, após alguns capítulos comecei a me simpatizar por ela e entender o porquê de ela agir mal às vezes. Hephzi amava a irmã e se preocupava com ela, mas queria viver, sair e fazer coisas normais para uma adolescente. Por outro lado, Rebecca conformava-se com a vida que tinha, apesar de sofrer bastante não tinha coragem de fazer nada para mudá-la.

Mesmo já sabendo da morte de Hephzi antes de iniciar a leitura, sofremos ao saber como ela morreu. Nos capítulos narrados por ela vemos alguém aprendendo a sonhar, tentando descobrir a vida, se apaixonando. As irmãs não sabiam de nada, tinham tantas privações que nunca tinham sequer acessado a internet, usavam roupas usadas, não assistiam televisão, não sabiam nem como surgiam os bebês. E, Hephzi tentará aprender coisas da vida que os pais não ensinaram. Mas, a morte prematura da jovem a impede de realizar tantos sonhos.

Os capítulos narrados por Rebecca são os mais tristes e sombrios. Sentimos o horror vivido pelas meninas desde o nascimento. Reb sofria mais, não somente pela doença, mas principalmente pelo fato de ser mais odiada pelos pais. Na primeira parte do livro ela passa o maior tempo de sua vida dentro do quarto. E, seus medos a assombram diariamente. Há muitos segredos escondidos atrás das paredes do quarto. É assustador quando Rebecca diz que a parede chora. Só entendemos esse fato posteriormente.

O livro é curto, tem apenas 253 páginas. A leitura é bastante fluída. O fato de ter sido usado muito o pretérito-mais-que-perfeito em um livro narrado por adolescentes me incomodou um pouco. Acho que a linguagem poderia ser um pouco mais coloquial. Também achei o final muito corrido, é um bom final, é lógico mas, não convenceu. Faltou emoção.

É uma boa história, bastante original. Quando lemos ficamos lembrando de tantos fatos que ouvimos sobre crianças maltratadas e abusadas pelos pais. Saber que isso acontece e que existem mães omissas e condizentes com os abusos é chocante. Não devemos esquecer que se suspeitarmos de que alguma criança esteja sofrendo algum tipo de abuso devemos denunciar. É só discar 100, não é preciso se identificar.

Recomendo a leitura. Tem muitas coisas que acontecem na vida das irmãs, mas não coloquei aqui. Se quiserem um drama com final feliz Corações feridos é uma pedida.

Obs. A capa é linda e tem tudo a ver com o enredo.